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Alma Sertaneja

28 / SET / 2014


 

“Todo nordestino tem alma sertaneja”

Baseando-se essa premissa, foi idealizado um dos novos espaços de visitação do Bairro do Recife. Nas imediações do Marco Zero, após o Centro de Artesanato de Pernambuco e a Caixa Cultural, encontra-se o Armazém 10, do Porto do Recife, ou melhor dizendo: Cais do Sertão Luiz Gonzaga.

A construção, da Brasil Arquitetura, segue inacabada em sua área externa, o que de certa forma contribuiu para a linguagem do edifício, que teve como material-chave o concreto pintado de ocre, reproduzindo as cores das pedras do Sertão.

O projeto original, porém, recebe um elemento vazado que recobre grandes vãos do armazém restaurado. A fachada da avenida principal perde um pouco em circulação por conta de seus tapumes provisórios, já que bloqueia a passagem direta dos pedestres desde o Marco Zero, porém ressalta ainda mais aos olhos o belo juazeiro trazido desde Gravatá.

 

O transporte dessa árvore, desde onde tinha suas raízes fincadas, retrata a mesma luta travada por milhares de nordestinos que, fugindo do sacrifício e da aridez do sertão, vieram em busca de oportunidades na cidade. O sacrifício em adaptar-se às novas terras é o mesmo, nos dois exemplos.

 

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Após a bela recepção oferecida pelos galhos secos bem-iluminados, entramos pelo hall e nos deparamos com algumas imagens que nos cativam de imediato. Até então, são só suspeitas, vestígios do brilhantismo que ainda surgirá.

Somos assim transportados para um Sertão menos seco e mais lúdico, onde sonhos, cores, cheiros, sons são mais que permitidos: são compulsórios. Há magia em todas as paredes e é impossível não senti-la.

No térreo, o encantamento visual é imediato: vários elementos permeiam o chão e as paredes, contando histórias do Sertão, sempre embalados por ritmos particulares à região.

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Um elemento forte no espaço é sua relação com Luiz Gonzaga, que surgiu naturalmente, devido à trajetória do compositor, igualmente marcada por sacrifícios e superações, em busca do sucesso.

No andar superior, o deslumbre continua: somos induzidos a compartilhar com os gênios da música local toda a riqueza de seus instrumentos, que vão desde o sutil triângulo até a forte zabumba, passando por pandeiros, rabecas, violões e alfaias.

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O projeto é cheio de melindres. Tantos, que vale a pena reservar um par de horas para estuda-lo, senti-lo....e reconhecer-se. A cenografia, de Isa Grinspum, é envolvente e marcante, graças à perfeita mescla entre sentidos, entre tradição e contemporaneidade, entre memória e tecnologia.

A trajetória do visitante é direcionada por 7 setores: Ocupar, Viver, Trabalhar, Cantar, Criar, Crer e Migrar (essas “diretrizes” foram extraídas da biografia de Gonzaga, outra forma encontrada pela curadoria para homenagear o Rei do Baião)

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O Velho Chico igualmente está representado na obra, não nos permitindo esquecer da dádiva que representa para o semi-árido. E também a xilogravura. A feira livre. O pau-a-pique. O sol. A caatinga. A seca. Tudo aquilo que nos representa, e por essa mesma razão, nos permite navegar. Assim é o Cais do Sertão: uma celebração da cultura nordestina e uma homenagem à terra de onde todos brotamos.

 

Fontes: Revista Projeto Design Set/ 2014